SOMBRAS ELÉTRICAS Nº 11 - JULHO DE 2012

LONG-SHOT - CARLOS REICHENBACH

A TURMA DA SÃO LUIZ

Carlos Ebert

 

Filmagens de Alice, episódio de Carlos Reichenbach em As libertinas (1968)

 

Cada um vinha de um lugar, e fazia alguma uma coisa diferente e estrambótica. O Henrique fabricava bonés. O Dennis pensava e agia como cowboy. O Barbuto vinha direto da repartição, sentava no fundo da sala com os indefectíveis terno & pasta de couro pretos. E lá permanecia quietinho. A Merle – nossa Jean Harlow, distribuia charme em doses homeopáticas para todos. Eu, Cláudio Polópoli, Ana Carolina, João Callegaro e Carlão Reichembach contentávamo-nos em viver de querer fazer e discutir Cinema. Assim mesmo; com letra maiúscula.

A Escola Superior de Cinema foi criada por um padre jesuíta; o Padre Lopez, um pragmático, que como Lênin achava que se lhe dessem adolescentes de vinte anos ele os transformaria em cineastas cristãos para toda a vida (1). Assim, antes de se pensar em filmar um único pé de 16mm, era obrigatório formar uma boa base em Humanidades: Filosofia, Ética, Literatura, História do Cinema, etc. Seriam dois anos de teoria para então começar a pensar em filmar alguma coisa. Acontece que os supracitados “loucos por cinema”, éramos todos ateus e - em graus variados, anarquistas. Não era pra acabar bem, mas acabou dando certo, porque terminamos saindo da escola para praticar livremente o que só nos deixavam reflexionar e assistir.

A duas quadras da Escola, em frente ao Cinema Belas Artes, na rua da Consolação, ficava nosso reduto/escritório/plenário: o Bar Riviera. Lá discutíamos tudo o que se relacionasse direta ou indiretamente, de qualquer forma e com qualquer grau de proximidade, com o CINEMA. Os autores cultuados eram (sem ordenação por mérito): Hawks, Fuller, Godard, Welles, Imamura, Shindo, Mojica, Zurlini, Straub, Bellochio, Antonioni e por aí ia... (a lista é longa).

Carlos Oscar Reichembach Filho, era o gaúcho da turma (como eu era o carioca e o Lofiego era o mexicano). Grandalhão e usando óculos de fundo de garrafa, Carlão – como já era conhecido na época, era uma alma generosa. Um homem bom. Daqueles que qualquer mãe confia o filho de colo enquanto fala no orelhão (Essa estória é pré-celular, pré-internet, pré-vídeo etc. Estamos em 1965.)

A convivência estreita nas noites dos dias úteis (que para nós eram todos os 7), se estendia pelo final de semana. Freqüentávamos alem do Bijou na Praça Roosevelt (então ainda uma grande esplanada), o Coral na rua Sete de Abril, que  exibia a produção francesa distribuída pela Art Filmes (Godard, Chabrol, Rivette, Rohmer, Rozier etc...), o Cine Oásis, ali na praça Julio de Mesquita, um poeira de programas duplos e de pegação, onde assistimos pelo menos duas vezes Madrugada da Traição do Edgar G Ulmer,  westerns do  Lesley  Selander e noirs do Joseph E. Lewis. Mas a festa mesmo era a estréia de algum cult  japonês no Jóia ou no Nikkatsu. Ai era uma epifania! Víamos Uchida, Mizoguchi, Ozu, Oshima, Naruse, Kobayashi, Inagaki e tantos outros já deletados da minha memória.

Perambulávamos pelo centro, assistíamos (ou dormíamos) nas manhãs de domingo às apresentações de musica erudita no Municipal. Comíamos no Giovanni ao lado do Cine Metro, no Papai da São João e no O Gato Que Ri do Arouche. Programa de duro. À noite flanávamos pela Nestor Pestana (Gigeto, Eduardo’s), mas acabávamos mesmo era no Ferro’s Bar, junto com as meninas/meninos e com direito a algumas aparições esporádicas mas estrepitosas do performático do Tomoshighe Kusuno. O Ferro’s povoava também os meus “dias úteis”, porque era lá, numa mesa a beira da calçada e  frente a um Dreher duplo, que eu revisava as provas de impressão da “Enciclopédia O Universo e o Homem” , recém impressas numa portinhola a duas quadras dali, na rua Santo Antônio.

Carlão se destacava da turma por muitos e vários motivos. O mais evidente, o vozeirão tonitruante que ele não conseguia modular muito bem, e que de quando em vez assustava os desavisados. Com mais  convivência, ele passava a  impressionar pelo conhecimento enciclopédico de tudo o que se relacionasse com  Cinema: filmes, diretores, atores, datas etc, estavam  sempre na ponta da língua. Enfático, mas sempre dentro da boa educação, Carlão não cultivava inimizades. Para se indispor com ele só mesmo  sendo muito carola ou reacionário. Essa era uma das inúmeras contradições que vivíamos então: éramos um bando de ateus anarquistas freqüentando uma escola de jesuítas...

Como a escola não nos proporcionava os meios para filmar, fomos a luta e formamos uma “cooperativa” para produzir em 8mm (não super 8,  8 mm mesmo, aquele que vinha numa bobina de 16mm e que Vc virava como um disco após  rodar um lado, para expor o outro). Nossa sede era o apartamento da  Beatriz,  uma colega um pouco mais velha , argentina, e que fazia as vezes de matriarca e bedel do grupo. Quando não estávamos lá reunidos tramando ou discutindo filmes, estávamos pelo centro, bocas do lixo e do luxo, 9 de julho etc, entrando nos bares em busca do movimento.

Bebia-se muito e de tudo. Lembro de um drink que Meg, - jornalista do Estadão, batizou de semáforo: campari em cima, uísque mo meio e pipermint por baixo. Cerveja era um refrigerante, que curava e dava ressaca. Cachaça por ser barata era o padrão. Coisa de louco... A Inteligentzia paulistana da época habitava a praça Roosevelt (Ignácio de Loyola Brandão, Flávio Márcio, entre outros) e a Vila Buarque. Morei nas duas. Lembro que Paulo José e Dina Sfat que eram nossos vizinhos na General Jardim eram considerados os abonados do pedaço. Às vezes rolava um churrasco na cobertura do casal e os projetos de cineasta apareciam em peso para tirar a barriga da miséria.

Nessas ocasiões sociais, Carlão alternava longos silêncios e  observação perspicaz, com intervenções pontuais e brilhantes. Isso claro, até irromper uma discussão   sobre um autor ou um filme  qualquer. Ai virava plenário de assembléia estudantil. Cláudio Polópoli fazia um estilo parecido, mas com os extremos mais evidentes. Ia do taciturno ao esganiçado numa fração de segundo.

Luís Sérgio Person, era um dos nossos mais brilhantes professores. Um time de pesos-pesados que incluía entre outros: Vilém Flusser, Paulo Emílio Salles Gomes, Francisco Luís de Almeida Salles, Roberto Santos, Décio Pignatari, Mário Chamie e Luiz Diaz. Segundo o próprio Carlão, foi Person quem o convenceu a ser diretor (“Foi um professor da São Luiz, o Luís Sergio Person. quem me colocou na cabeça que eu deveria dirigir filmes.”)

Person era o único entre os professores que baixava regularmente no Riviera para confraternizar e participar das intermináveis discussões. Ao contrário de todos nós, Person detestava Godard. Achava-o alienado, superficial e chato. Carlão liderava os godardianos, seguido de perto por Polópoli e por mim.

Essa festa que foi a primeira turma da Escola Superior de Cinema São Luís, acabou para mim quando consegui – através do meu bom amigo José Alberto Reis, um lugar de fotógrafo de still do filme de estréia do Maurice Capovilla, “Bebel. Garota Propaganda”. Depois veio o Sganzerla, O Bandido da Luz Vermelha , etc... O resto é história. Nunca perdi o contato com o Carlão. Fui personagem assíduo das famosas “Cartas do Reichenbomber”(2) (Carlão foi o primeiro cineasta-blogueiro entre nós), encontrava-mos nas estréias dos filmes dos amigos e também em alguns velórios.

O fabuloso crítico e cineasta Jairo Ferreira, nosso amigo desde essa época, no capítulo dedicado ao Carlão no livro “Cinema Marginal “cita uma declaração dele feita à revista Filme&Cultura nº28 de 1978: “ Hoje gosto apenas de uma seqüência que filmei em homenagem a Samuel Fuller, cujos Shock Corridor e Naked Kiss me ensinaram respectivamente a dialética do travelling e a violência dos primeiros planos à altura do pescoço. Sermos os industriais da miséria foi a única idéia que passou do filme”. Dez anos haviam se passado desde que cada um da Turma da São Luis seguira  seu caminho, mas Carlão seguia em frente com a nossa “causa”, agitando a bandeira.  Coerente, sem ser imóvel ou dogmático, Carlão efervecia. Os projetos eram muitos mas, como declarou em 1999 em uma entrevista (3), “Não tenho pressa. Gostaria apenas de viver o tempo necessário para poder viabilizar pelo menos um terço de meus trinta projetos já esboçados no papel.” Só não fez mais por conta de uma falseta do coração, que metaforicamente, era o seu órgão mais forte e saudável...

 

CARLOS EBERT, ABC, é diretor de fotografia.

© 2012 Carlos Ebert

© 2012 SOMBRAS ELÉTRICAS

 

(1) A frase de Lênin é: “Deem me  uma criança de 8 anos, e eu farei dele um bolchevique para toda  a vida”.

(1) http://www.terra.com.br/cinema/opiniao/opus48.htm

(2) http://filmescopiobr.amplarede.com.br/cineastas/entrecarlao.htm