SOMBRAS ELÉTRICAS Nº 7 – Junho de 2006

VER COM OLHOS LIVRES

ÉLODIE BOUCHEZ: A VIDA NÃO-SONHADA (E NÃO-REAL) DOS ANJOS TORTOS (Da séria série As belas da tarde e da sessão da tarde

Antonio Paiva Filho

Senhores distribuidores: quando é que vocês vão ter pena de nós e trazer outro filme com Élodie Bouchez, caramba?

(Uma cena de A vida sonhada dos anjos, 1998, de Erick Zonca.)

 

Paris com os passeios molhados e a caca de caniche a diluir-se nas poças de água. Paris com dois amigos que se bejiam em público pela primeira vez. Paris com uma bailarina a dançar em pontas nas pontas douradas da vedação do jardim do Luxemburgo (eram três da manhã). Paris de bicicleta, com alguém meio embriagado a cortar sobras de frio. Na Paris do vagabundo que dormia na saída de ar quente do metro e dispensava cobertor até em Janeiro, andavam umas meninas que era difícil evitar. Um tipo descia o caracol de escadas do prédio, saía para a rua e topava logo com uma. Chegava a casa, punha-se a fazer cócegas ao controlo remoto e era certo que pelo menos uma delas aparecia. No dentista, a folhear revistas, apareciam as três. As meninas viviam os anos de uma carreira em ascensão. Faziam cinema e vendiam iogurtes. Estavam em todo o lado. [1]

 

O português do blog Memória Inventada suspira com saudade de três meninas que conheceu pessoalmente em Paris — meninas que começavam sua carreira no cinema: Virginie Ledoyen (uma das 8 Mulheres, de François Ozon, 2002), Sandrine Kiberlain (uma das três filhas de Louis/Michel Piccoli, em Tudo Bem, Até Logo, de Claude Mouriéras, 2000) e Élodie Bouchez. Fazer o quê, ó pá? Lisboa é relativamente perto de Paris, ainda dava para vê-las de perto. Mas se Lisboa é longe de Nova Iorque, imagine do Rio de Janeiro, São Paulo ou de qualquer cidade desta Ilha de Vera Cruz, onde vivo. Sei que há léguas a nos separar de mademoiselle Bouchez, tanto mar, tanto mar...

A primeira vez que vi Élodie Bouchez não foi pessoalmente, tal como o patrício. Foi na tela. Mais propriamente, em O Diário Roubado (Le Cahier Volé, 1992), adaptação de ecos truffautianos da novela de Régine Deforges — até porque Bernard Revon, um dos roteiristas favoritos de François Truffaut, foi o encarregado desta adaptação para Christine Lipinska, filha de Suzanne Lipinska, amiga e patrona de artistas e escritores, inclusive do jovem e rebelde Truffaut de antes da crítica e da fama no cinema.[2]  E, principalmente, porque a heroína Virginie lembra muito Antoine Doinel, de Os incompreendidos (Les 400 coups, de Truffaut, 1959) e a Janine de La petite voleuse, de Claude Miller (1988) [3], em tons um pouco mais amenos: Virginie não chega a encarar a criminalidade, mas resiste com unhas, dentes, ambição (de ser escritora), imaginação e ironia, ao desamor paterno e a mesquinhez de sua pequena cidade. [4] O impacto foi triplo: pela riqueza da composição da personagem, pela entrega visceral de Élodie ao personagem e (óbvio ululante) pela sua beleza rara.

Claro, tinha de acompanhar esta moça em todos os seus filmes seguintes — isto é, os que chegaram ao Brasil. E acabei percebendo que Virginie foi um proto-exemplo do que seria a premissa básica de Élodie Bouchez no cinema: mais do que ser musa de novos (e até transgressores) cineastas, seus personagens sempre seriam anjos tortos – isto é, personagens gauches, "tortos" da vida real, que oscilam entre a inadaptação e a transgressão à norma.

Claro, Maïté Alvarez, a jovem melancólica, reprimida e ligeiramente neurótica de Rosas Selvagens, de André Techiné (1994), parece uma exceção a esta regra. A não ser que nos lembremos de que certos comportamentos podem ser um grito de socorro ou a busca de uma saída. Pode ser que se entregar ao pied-noir [5] Henri (Frédéric Gorny) seja o começo de uma saída.

 

Mas deixemos a exceção (SIC) de lado e vamos à regra geral (SIC, de novo) da persona cinematográfica de Élodie Bouchez — isto é, a partir dos poucos filmes que chegaram ao Brasil e que eu consegui ver. (Donde fica uma pergunta a distribuidores e exibidores: o que vocês tem contra Élodie Bouchez que não trazem mais filmes com ela para esta Ilha de Vera Cruz? Respostas serão bem-vindas.) Dois personagens — a rigor, dois anjos tortos — são exemplares: a (digamos) heroína-título de Louise – Take 2, de Siegfried, e Isa, de A vida sonhada dos anjos, de Erick Zonca (ambos de 1998).

"Siegfried de quê, tio?" Não sei. Ninguém sabe — a não ser os oficiais da alfândega, os únicos a quem ele revela seu sobrenome. [6] E não me pergunte o porquê da frescura temperada de paranóia deste músico doublé de cineasta — é dele mesmo a trilha sonora musical de Louise – Take 2. O filme deste sacana do Siegfried é bem estilizado, clipado à lá Wong Kar Wai (mas quem não se influenciaria pelo cinema oriental neste início de século XXI?); no entanto, lembra muito François Truffaut, especialmente Os Incompreendidos (1959) – só que mais bruto, amargo. Louise é a namorada do chefe de uma gangue de jovens, que os acompanha em seus golpes, e também é o objeto de paixão do vagabundo Rémi (Roschdy Zem). É outro anjo torto – confusa, sonhadora, perdida, imaginativa, fora da ordem – ainda mais quando esta ordem vai capturá-la e submetê-la a suas regras – a ela e às crianças que ela, praticamente, adota pelo caminho. Os últimos planos do filme – em que Louise embarca as crianças para o litoral (evocação do final de Os Incompreendidos) são bem sugestivos desta postura.

A Isa, de A vida sonhada dos anjos, também é uma personagem fora da ordem, mas de outra forma. O que acabamos intuindo, na história desta andarilha afetuosa, é que, no fundo, não é que ela não seja adaptada a este mundo; é este mundo – paraíso do eu, dedicado ao ganho, à conquista de poder e glória a qualquer preço, inclusive do afeto – que teima em não se adaptar a este anjo (talvez) torto, generoso, que ama até quem não ama ninguém além de si mesmo, como Marie (a igualmente bela e ótima atriz Natacha Régnier), sua parceira de apartamento, que vai dançar bonito, apesar dos esforços de Isa em ajudá-la, em amá-la como a uma irmã.

Se brincar, os outros anjos tortos também podem estar na mesma situação.

 

Por falar em andarilha, vamos voltar ao português do blog Memória Inventada e seu olhar sobre as andanças parisienses de Élodie Bouchez e outras belas meninas:

         Depois da hegemonia Béart-Binoche, chegara a hora de Elodie Bouchez, de Virginie Ledoyen e de Sandrine Kiberlain. Nenhuma das três tem a beleza irrepreensível da Béart. Nenhuma terá a carreira internacional da Binoche. Não sei se uma delas atingirá o estatuto de Isabelle Hupert, mulher de uma sensualidade intemporal. Para poupar palavras, a Virginie é carnal, a Bouchez temperamental e a Kiberlain cerebral. Tenho pena de não as encontrar pelas ruas de New York. Em Paris éramos quase íntimos. É uma forma de dizer, claro, que me dá muito jeito e lhes faz pouco mal.

         Ah, é, ó pá? Bem, como diria o filósofo Dr. Pimpolho: Ora, vá se fo...pééém!!!

         Até onde sei, o cinema americano independente já a descobriu.

         Mas... e daí se ela nunca vier a ter uma carreira internacional? Para mim, pouco importa.

         O importante é que ela continue a ser o "anjo torto" do cinema, com uma vida sonhada ou não.

ELODIE BOUCHEZ - FILMOGRAFIA

Stan the Flasher (1990) (como Elodie) – dir. Serge Gainsbourg -.... Natacha

Les Compagnons de l'aventure (1989) – dir. Christophe Andrei e Chantal Bauman - série de TV (1990-1991)
Tous les garçons (1992) – dir. Etienne Faure

Tango (1993) – dir. Patrice Leconte -.... Moça no avião

O Diário Roubado (Le Cahier volé - 1993) – dir. Christine Lipinska -.... Virginie

La lettre inachevée (1993) – dir. Chantal Picault - (TV) .... Michèle

Idade Perigosa (Le Péril jeune - 1994) – dir. Cédric Klapisch - .... Sophie
Rosas Selvagens (Les Roseaux sauvages - (1994) – dir. André Techiné - .... Maïté Alvarez
3000 scénarios contre un virus (1994) – dir. Jean Achache e Richard Berry - .... Julie (episódio "L'Anniversaire")
Les mots de l'amour (1994) – dir. Vincent Ravalec -.... A filha.

Le plus bel âge (1995) – dir. Didier Haudepin - .... Delphine
Mademoiselle Personne (1996) – dir. Pascale Bailly

Les brouches (1996) – dir. Alain Tasma (TV) .... Sandrine

Dançar Até Morrer (Lola - 1996) – dir. Yolande Zauberman - .... Lola
À toute vitesse (1996) – dir. Gaël Morel - .... Julie
The Proprietor (1996) – dir. Ismail Merchant - .... Uma jovem.

La Divine poursuite (1997) – dir. Michel Deville - .... Angèle
Estrela Cadente (Le ciel est à nous - 1997) – dir. Graham Guit - .... Lola/Marguerite
Flammen im Paradies (1997) – dir. Markus Imhoof - .... Georgette/Juliette
Que sont-ils devenus? (1997) – dir. André Techiné (TV) - .... Maïté

Les Fantômes du samedi soir (1997) – dir. Olivier Dahan - (voz)

C'est Noël déjà (1997) – dir. Siegfried -

A Vida Sonhada dos Anjos (La Vie rêvée des anges - 1998) – dir. Erick Zonca - Isabelle 'Isa' Tostin
Zonzon (1998) – dir. Laurent Bouhnik - .... Carmen

J'aimerais pas crever un dimanche (1998) – dir. Didier Le Pêcheur - Térésa
Louise (Take 2) (1998) – dir. Siegfried - Louise

Les Kidnappeurs (1998) – dir. Graham Guit - .... Claire

Je veux descendre (1998) – dir. Sylvie Testud -

Lovers (Dogme # 5 - Lovers - 1999/I) – dir. Jean-Marc Barr - .... Jeanne
Premières neiges (1999) – dir. Gaël Morel (TV) - .... Léa

A Culpa de Voltaire (La Faute à Voltaire - 2000) – dir. Abdel Kechiche - .... Lucie
Sensual demais (Too Much Flesh - 2000) – dir. Pascal Arnold e Jean-Marc Barr - Juliette

Shooting Vegetarians (2000) – dir. Mikey Jackson - a moça alegre do coffee shop.

The Beat Nicks (2000) – dir. Nicholson Williams -

CQ (CQ - 2001) – dir. Roman Coppola - Marlene
Le Petit poucet (Tom Thumb) (2001) – dir. Olivier Dahan -.... La femme de l'ogre
Pega Leve (Being Light - 2001) – dir. Pascal Arnold e Jean-Marc Barr - Justine

La Merveilleuse odyssée de l'idiot Toboggan (2002) – dir. Vincent Ravalec -.... (episódio "Les mots de l'amour")

A Guerra em Paris (La Guerre à Paris - 2002) – dir. Yolande Zauberman -.... Ana Maria
Dreams of Trespass (2002) – dir. Stephanie Danan

Pacto de silêncio (Le Pacte du silence - 2003) - dir Graham Guit - Gaëlle/Sarah

Stormy Weather (2003) - dir Sólveig Anspach - Cora

À quoi ça sert de voter écolo? (2004) – dir. Aure Atika

America Brown (2004) – dir. Paul Brown - Rosie

Brice de Nice (2005) - dir. James Huth - Jeanne

 

[1] Do blog português Memória Inventada (http://memoria-inventada.blogspot.com/2003_04_06_memoria-inventada_archive.html), 10 de abril de 2003.

[2] O "Centro de Observação de Menores", onde Antoine Doinel (Jean-Pierre Léaud) é internado no terço final de Os incompreendidos, na verdade foi filmado no Moinho de Ande, propriedade de Suzanne Lipinska em Saint-Pierre-du-Vauvrey. Sobre isso, ver DeBAECQUE, Antoine & TOUBIANA, Serge. François Truffaut: uma biografia. Rio de Janeiro, Record, 1998.

[3] Roteiro de Truffaut, quase que uma versão feminina de Les 400 coups, com certa inspiração também em Mônica e o desejo, de Ingmar Bergman, só seria filmado por Claude Miller em 1988, com Charlotte Gainsbourg no papel.

[4] Reza a lenda que a narrativa de O Diário Roubado (edição em português: Rio de Janeiro, Record, 1998) se baseia em fatos da vida da própria Régine Deforges — fatos estes que a traumatizaram a ponto de passar um bom tempo sem escrever. O certo é que, depois de um bom tempo trabalhando como editora de livros, só se lançaria na literatura com a série de romances A Bicicleta Azul, ambientada na França durante a Segunda Guerra Mundial.

[5] Francês nascido na Argélia.

[6] Dados extraídos do site da 23a. Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Ver arquivo do site, em www2.uol.com.br/mostra/28/.

 

ANTONIO PAIVA FILHO, editor de SOMBRAS ELÉTRICAS, sonha em dirigir um filme com Élodie Bouchez. Claro que é um sonho quase impossível, mas sonhar (ainda) não custa nada...  

 

© 2006 - Antonio Paiva Filho

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