SOMBRAS ELÉTRICAS Nº 8 – Abril de 2012

LONG-SHOT - O FUTURO DA POLÍTICA AUDIOVISUAL BRASILEIRA.

CURTA O DIA DO CURTA

Jaime Lerner

 

Os curtametragistas informam: não são porco para um dia de banquete. (Cena de Ilha das flores, de Jorge Furtado)

 

No dia 04 de abril se comemorou o dia do Curtametragem Brasileiro. Uma ação conjunta entre ABD Nacional, Conselho Nacional de Cineclubes e Congresso Brasileiro de Cinema, promoveu ações de exibição de curtametragens em todo o país. Nessa data, há exatamente 80 anos, colocava-se pela primeira vez, através de decreto presidencial, a reserva de mercado para o filme nacional, de qualquer duração.

Em 1975, uma Lei federal (6281, artigo 13º) estabeleceu que antes do filme de longametragem estrangeiro seria incluído um filme de curtametragem nacional. De lá para cá, houve inúmeros decretos, sistemas e instituições cuja responsabilidade era a de garantir a exibição de curtametragens nos cinemas. Muitas vezes essas iniciativas tiveram forte oposição dos exibidores, que produziam seus próprios curtas apenas para cumprir a Lei ou entravam na Justiça tentando barrá-la. Essas ações, entre outras, ajudaram a criar junto ao público um preconceito contra o Curtametragem, preconceito que, de certa maneira, fazia parte de um preconceito geral contra o cinema nacional. O sistema que melhor funcionou na exibição de curtametragens foi o aplicado através dos decretos 137 e 173 do Concine, na segunda metade dos anos 1980. Muitos críticos consideram esta fruição na exibição, que remunerava os realizadores/produtores para fazerem novos filmes, como um elemento importante no que mais tarde veio a ser denominado de A Primavera do Curta, época em que os curtametragens brasileiros mostraram vigor e qualidade, arrebatando a atenção e premiação internacional. Infelizmente, o presidente Collor de Mello extinguiu, com um simples “canetaço”, os organismos que operavam esse sistema. O Cinema Nacional, e com ele o curtametragem, entrou em profunda crise.

Nos últimos anos, o mundo e com ele o panorama de produção e exibição mudaram consideravelmente. Não falamos mais em “cinema” e sim em “audiovisual”. Além da tela grande e da telinha de TV temos conteúdos on line, Video on Demand, as telinhas de computadores, tablets e celulares, as telinhas de poltronas de vôos, das estações de metrô, etc. Neste novo cenário, o conteúdo audiovisual de curta duração pode ganhar um destaque importante. Mas a coisa não se faz por si só, nem pela mão invisível do Mercado, como pregam alguns. É preciso ter uma ação governamental para instituir um ou vários mecanismos que deem conta da circulação do curtametragem. Nestas últimas décadas se criou um manancial de filmes curtos que constitui um verdadeiro tesouro. Muitos deles, além de exibições em festivais, em uma ou outra exibição em TV, não chegam ao grande público. Pensando nisso, a ABD criou o projeto Curta em Todas as Telas, projeto que analisa o mercado atual de curtametragens, elenca as possibilidades de comercialização e desenha um sistema composto de vários mecanismos de fruição. Esse sistema deve ser aprofundado e implementado através do MINC, para que os filmes de curta duração voltem a encantar os espectadores do Brasil e fora dele. Esse sistema deve ser implantado e institucionalizado de forma que se enraíze, para que não possa ser extinto por um simples “canetaço”.

Assim não precisaremos mais comemorar o Dia do Curta em data específica. Todos os dias teremos o que comemorar.

 

Leituras interessantes:

 

http://pt.wikipedia.org/wiki/Lei_do_Curta

http://www.revistacinetica.com.br/blocosetembro06.htm (artigo: Lei do Curta de Leonardo Mecchi)

http://www.casacinepoa.com.br/as-conex%C3%B5es/textos-sobre-cinema/por-que-curta-metragem

http://www.curtaocurta.com.br/jornal/234/

http://www.kinoforum.org/curtaemercado/

www.curtanastelas.blogspot.com

 

Curtametragista e documentarista, JAIME LERNER é presidente da ABD Nacional.