SOMBRAS ELÉTRICAS Nº 7 – Junho de 2006

LONG-SHOT - CINEMA SE APRENDE NA ESCOLA? (II): O 11º Festival Brasileiro de Cinema Universitário, os filmes de escola e o ensino de Cinema.

UM PÉ E MEIO

Antonio Paiva Filho

 

Um festival voando em círculos?

 (Capa de programa do 11º Festival Brasileiro de Cinema Universitário.)

 

Fica meio esquisito começar um artigo sobre o 11º Festival Brasileiro de Cinema Universitário de um jeito tipo "Cartas (ou e-mails) dos leitores", mas aconteceu o seguinte imbroglio.

Estava eu posto em sossego, preparando as coisas para acompanhar mais uma edição do Festival, quando recebo um e-mail de uma amiga de longa data, Marta Hernemann.

Mas deixem-me apresentá-la direito. Marta é jornalista e, assim como eu, acompanha o Festival há muito tempo, desde a quarta edição (1999) -- isto é, ainda desde o tempo de estudante – até porque ela também é uma cinéfila roxa. Apesar disso, ela não trabalha com jornalismo cultural: ela é repórter de polícia – segundo uns, a mais corajosa do ramo atualmente; segundo outros, a mais louca.

Alguém me contou certa vez que ela deu um esporro num cara que era simplesmente o chefe do movimento numa favela carioca... e o cara não só engoliu a bronca como atendeu ao que ela queria e ainda a deixou ir embora. (Ah, sim, para quem chegou de Marte ontem: movimento, na gíria do tráfico de drogas, é o próprio tráfico sediado nesta ou naquela comunidade carente.)

Sinceridade? Isso só pode ser lenda. Por três razões. Primeira, não foi pessoa séria quem me contou – pelo menos, não depois do terceiro ou quarto copo. Segunda, esta pessoa não me deu detalhes – em que favela aconteceu isso, porque Marta supostamente deu esporro no chefão etc. e tal. Terceiro, porque a última coisa que um jornalista faria em sã consciência é bancar o valente diante de um chefe de tráfico: o movimento encara jornalistas como uns X-9 auxiliares da polícia, e se minha amiga Marta houvesse feito isso, a esta altura não estaríamos nos falando por e-mail, mas via sessão espírita. (Tim Lopes que o diga.)

O que eu sei do que Marta é capaz – porque, meninos, eu vi – é de dar decisão em polícia. Sério: certa noite, estávamos nós quatro voltando de uma festa: eu, Marta e nossas respectivas namoradas na época. [1] Estávamos cheios de uca, felizes e com idéias muito interessantes para aquela noite – aquelas idéias que podem esperar até chegarmos a qualquer lugar com quatro paredes e um telhado igualmente abertos, mas que, no nosso caso, não estávamos agüentando mais... Marta e a sua consorte, então, nem se fala: as duas estavam aos beijos e abraços.

Neste momento nada solene, passa uma patrulhinha da PM e vê a cena. De acordo com o velhíssimo script, os PMs páram, exigem os nosso documentos, dão uma reprimenda nas duas pela "pouca-vergonha"... mas, como eram bonzinhos, podiam liberar as duas, desde que fossem... "razoáveis"... do contrário, todos iriam para a delegacia por atentado ao pudor, e seus familiares seriam chamados e saberiam disso. Foi a pior idéia que os meganhas tiveram. Tive a pachorra de contar o tempo do esporro que Marta deu neles: 20 minutos cravados. Quer dizer, deste tempo, Marta usou 30 segundos para dar a sua carteirada – isto é, mostrasse sua carteira do sindicato e a identidade funcional de um grande jornal; os outros 19 minutos e meio foram usados por Marta para uma das mais arrasadoras broncas arrasa-quarteirão que eu já vi alguém dar em terceiros, com todos os ingredientes necessários: ameaça de entregar os dois para a corregedoria (isso ocorreu pouco tempo depois da chacina de Vigário Geral, e a barra não estava para qualquer PM tentar sequer o "sabe com quem está falando?"), gentis sugestões de pavilhões e orifícios onde os bravos e íntegros homens da lei e da ordem deveriam introduzir seus moderníssimos equipamentos com os quais protegem de maneira eficiente a população fluminense etc., etc. Um dos meganhas ainda tentou balbuciar ameaças, mas não tinha a potência de voz necessária para isso. O outro nem isso: queria ser um avestruz para enfiar a cabeça em algum lugar...

Mas vamos ao e-mail de Marta:

 

Mon ami Antoine:

Me esclareça uma coisa:

O Festival Brasileiro de Cinema Universitário é feito com o apoio da UFF, certo?

Por isso, a sede do Festival sempre foi em Niterói, lá no Teatro e Cine Arte UFF, certo?

E a Prefeitura de Niterói também apóia o Festival desde o 9º Festival, correto?

Então por que diabos este ano vão fazer no Rio de Janeiro? Todas as Mostras (as Competitivas e a maior parte das Informativas) mais importantes no CCBB e nos Correios. Só ficaram em Niterói a reprise de algumas Mostras Informativas. E, para não dizer que o Festival não é da UFF, vão ficar lá uma Mostra Informativa de Vídeos da universidade e a reprise de algumas (eu disse algumas) Mostras Informativas.

Já que perguntar não ofende (e, na minha profissão, é essencial), fica uma perguntinha básica: POR QUÊ? O que fez o Festival deste ano ir para o Rio, e principalmente para o CCBB, que tanto aporrinhou os organizadores no ano passado? Seriam pressões do CCBB para ir para lá? Ou é aquela velha ambição (que você comentou comigo tempos atrás) de fazer o Festival no Rio porque lá teria mais "visibilidade"? Bom, se é o primeiro caso, então o pessoal do Festival é muito masoquista. Se é o segundo caso, você não acha que é muita sacanagem desse povo pegar apoio (leia-se dinheiro) da prefeitura e de uma universidade Federal sediada em uma cidade onde não querem mais ficar?

 

Au revoir, mon cherí.

 

MARTA.

 

Ponto 1: eu e minha língua razoavelmente comprida... Preciso parar de pôr tudo o que penso para fora, mesmo para amigos...

Ponto 2: taí, isso eu não sabia.

Não, realmente as perorações de uma pessoa assim como Marta não podiam ficar sem resposta.

 

Ma chère amie Marthe, mon diable aux corps [2]:

 

Antes de mais nada, obrigado pela informação. Acabo de ver o site do Festival e realmente é isto mesmo: o filé mignon da programação estará no Rio, no CCBB e nos Correios.

Agora, você me pergunta porque isto aconteceu, e eu lhe respondo: não sei., O que posso fazer é aventar algumas teorias. Na verdade, duas.

A primeira teoria é a da velha busca por mais visibilidade, que eu te falei certa vez. (Aliás, se puder segurar a gloriosa língua – tudo o que lhe falei foi na base da confidência – melhor, ou vou me meter em encrencas.)

Desde a 3a. edição (1998), o Festival tem um pé em Niterói e outro no Rio de Janeiro. Mas sempre desta forma: primeiro, apresentação em Niterói; depois, no Rio. (Foi assim enquanto o evento fez parceria com o Grupo Estação – no tempo em que existiu o saudoso Estação Icaraí, lembra-se dele?)

Só que, já nesta epoca, tinham algumas pessoas entre o povo do Festival que. levantavam a proposta de transferir a sede para o Rio, tentando uma parceria mais aprofundada com o pessoal do Estação – aproveitando-se do fato de que um dos organizadores do Festival, Guilherme Tristão, conseguiu um trabalho estratégico: coordenador de programação do grupo Estação. Nem assim a idéia foi adiante.

No entanto, desde que começou a parceria com o CCBB (a partir do 6º Festival, em 2001), a, idéia vai e volta, vai e volta... volta por dois pretextos:

1- Atende à maioria dos alunos de cinema da UFF, que moram no Rio (o pretexto mais recente); e

2- (o pretexto mais antigo) O FBCU no Rio de Janeiro teria mais visibilidade.

E vai por causa da fragilidade destes pretextos:

1- Se os alunos da UFF tem de ir para Niterói para as aulas (e para pegar equipamentos para filmar). POR QUE NÃO PODEM IR PARA ASSISTIR ÀS MOSTRAS?

2- Que visibilidade pode ter MAIS UM FESTIVAL DE CINEMA ENTRE TANTOS NA CIDADE (QUE APESAR DOS PESARES CONTINUA) MARAVILHOSA?

Idéias deste jaez tinham algumas justificativas externas. Principalmente em períodos onde o Festival teve dificuldades de relacionamento com o Centro de Artes da UFF {nos períodos em que. foi dirigido por alimárias que nem sabiam o que era arte, muito menos de sua pluralidade) e com a Prefeitura de Niterói (durante o período de Jorge Roberto Silveira e João Sampaio, que

tinha a sua própria política cultural, de grandes eventos próprios e, se sobrar algum troco, apoio a pouquíssimos outros de fora). O único problema é que, até prova (ou conjuntura) em contrário, esta situação mudou.

É claro que, como nos informam pessoas ligadas ao Festival, o Centro de Artes da UFF perdeu um pouco da confiança deles depois que, durante sessões da Competitiva de Curtas, três projetores 16mm queimaram após sucessivas quedas de luz.  Segundo eles, a culpa foi da instalação precária do Teatro da UFF. É, pode até ser isso. Como pode ser culpa de um famigerado chip que faz parte no sistema da Ampla, a nossa concessionária de energia elétrica. Chip safado este: quando há uma sobrecarga de energia numa região, este chip instalado nos transformadores interrompe a sua transmissão . O problema é que tanto a interrupção quanto a volta da luz são abruptas, e nesta brincadeira, aparelhos elétricos costumam queimar. Projetores 16mm, por exemplo. (Ainda assim. uma pergunta que não quer calar: onde o povo do Festival estava nesta questão da instalação elétrica do Teatro da UFF? Teriam lutado para que a Reitoria reformasse estas instalações? Se o fizeram, por que a Reitoria não o fez? Se não lutaram, então por que reclamam?) Ainda

assim, fora isso, a situação de relacionamento é essa: a FEC (Fundação Euclides da Cunha, entidade privada de apoio à UFF) dá dinheiro para o Festival; a Prefeitura de Niterói apóia financeiramente o Festival (quer dizer, este ano, muito menos, por causa do evento Niterói: encontro com a Espanha). Então – e  aí fica a pergunta que você fez – por que a UFF e a cidade de Niterói foram... talvez a palavra não seja exata mas vá lá... esnobadas pelo Festival este ano?

(Ah, sim: ainda sopre a própria cidade de Niterói, houve ocasiões em que algumas pessoas do povo do Festival reclamaram de que a propria cidade nunca lhes deu acolhida calorosa. Mas eu fico me perguntando se o próprio Festival se esforçou, verdadeiramente em estabelecer relações calorosas com a cidade -- descontando-se os bares, botequins e pé-sujos da mesma, é claro.

Talvez a resposta, por outro lado, esteja na relação do Festival com o CCBB --relação que com o passar do tempo, vai ficando cada vez mais difícil.

O CCBB recebe o Festival a partir da 6a. edição, em 2001, como parte do acordo entre o centro e o Departamento de Cinema e Vídeo da UFF para a realização de atividades em conjunto. Aliás, uma das razões que fazem o Festival ficar ainda por lá é  justamente isso: como parte do acordo. Sinceridade? Precisava não. O Festival pode esclarecer, tanto ao CCBB quanto ao Departamento. de Cinema e Vídeo, que não pretende melar o acordo: o Departamento pode continuar fazendo outras atividades lá – menos o lado carioca do Festival, que pode ser feito em outro lugar.

Porque, nos últimos tempos, a relação entre Festival e CCBB se encaminha à beira de um conflito – cortesia de uma mudança de direção no CCBB: sai uma direção competente, entra uma diretoria doida para mostrar, no sentido figurado, que tem o pau maior do todo mundo (isto é, que tem O poder) para, possivelmente, disfarçar um complexo de inferioridade. (Ou, o que é mais provável, atender aos interesses de mais uma panelinha cultural.) Daí, os conflitos entre os dois nos _últimos tempos.

Antes e durante o 10º Festival, dois incidentes foram significativos deste conflito. Durante a fase de organização, o CCBB exigiu uma produtora, com CNPJ e tudo, para fazer o Festival junto com o pessoal. (Como se o povo do Festival não fosse capaz de fazê-lo, como aliás nestes últimos anos, e como se o CNPJ da UFF, da FEC OU do próprio Dep. Cinema e Vídeo não servisse.) E durante o próprio 10º Festival, um programa das Mostras Informativas teve de ser cancelado por ordem do CCBB, em benefício de, no mesmo horário, uma sessão do "Cinema Brasileiro Legendado" – segundo eles, "uma sessão tradicional". Bem, uma sessão de filmes brasileiros com legendas para deficientes auditivos é um projeto louvável, mas em sã consciência não pode ser considerado "tradicional" nem na casa do chapéu – especialmente porque uma das características fundamentais que fazem com que um evento seja tradicional é o tempo de existência: o projeto "Cinema Brasileiro Legendado" estava em seu segundo ano de existência; o FBCU tem cerca de 11 edições. Qual deles, por este prisma, é mais "tradicional"?

Fora o antigo e estranho hábito de não permitir que o nome da produtora de um evento no CCBB apareça em seus próprios impressos. A A.R. Produções realiza o Curta Cinema há décadas, mas quase ninguém fora da área de cinema sabe disso. Para o grande público, vale o que está escrito: "Patrocínio e realização: Centro Cultural Banco do Brasil".

Daí, amiguinha, o mais provável é que o 11º Festival Brasileiro de cinema Universitário esteja sediado entre os Correios e o CCBB por pressões da atual direção deste último – uma direção bunda-mole com panca de valente. Sim, porque, para eles, dar decisão em realizadores de eventos em seu "puteiro de luxo" (© Sérgio Santeiro) – tipo assim: Ou filhinho faz o que eu digo ou papai não vai lhe dar mais dinheiro não" – é fácil; lidar com grupos de pressão mais furiosamente incisivos, nem tanto. Basta lembrar a sua "corajosa" reação às pressões de um grupo de "cristãos" (pero no mucho) fanáticos, ou quase, no caso Márcia X, da exposição Erótica. E fica ainda mais fácil quando, no caso do Festival, organizadores descobrem-se dependentes demais do CCBB para continuar sem ele. Ou se acham dependentes dele e buscam razões para continuar achando isso.

Um deles é tal da visibilidade, mas já falei sobre isso. Outra razão é essa: "no CCBB temos meios para fazer um bom Festival".

Que meios? As salas de cinema, de vídeo e dos 3º  e 4º andares para as oficinas, cedidas pelo CCBB (o que justifica a pretensão de boca cheia do CCBB de se afirmar "patrocinador e realizador" de um evento)? Ah, fala sério.

E a liberdade, onde fica?

E o acesso do grande público à produção audiovisual das escolas de Cinema e Vídeo desta Ilha de Vera Cruz, que é o objetivo principal do Festival desde a sua primeira edição? No 6º Festival, o acesso era livre para todos, mediante senha. Agora é assim: quem é aluno de faculdades e universidades pode ter acesso mediante a apresentação de sua carteirista funcional ou da famosa carteirinha da UNE; o resto do público – não-estudante – só entra com o Cinepasse do CCBB: por R$ 8,00 por um ingresso especial que dá acesso à programação de cinema e vídeo do mês inteiro. Uma ótima idéia para quem vai acompanhar a programação do CCBB, mas péssima para quem só vai ver o Festival, e mais nada. Como o nosso caso, amiguinha.

Mas sei lá, este ano a coisa poderá ser diferente. Espero.  

Por outro lado – é, esse aí mesmo entre a Avenida Rio Branco e as ruas do Livramento, Irineu Marinho e do Lavradio [3] – eu sei o verdadeiro motivo de sua raiva. É que, como nos anos anteriores, em época do Festival, você tira férias para acompanhá-lo – principalmente pela facilidade de morar a cinco minutos do Centro de Artes da UFF, nos anos em que está lá. Ora bolas, Marta, se você  trabalhasse em Niterói, realmente ia ser difícil. Mas o jornal onde você trabalha é no Rio, e você pode perfeitamente sair mais cedo e ir até o CCBB e os Correios, sem esquecer de pegar a sua namorada no escritório de advocacia onde ela trabalha. Eu, que moro em Niterói, vou encarar a barca todos os dias do Festival. Por que você e sua namorada não podem encarar um ônibus ou uma boa caminhada a pé?

Beijim.

ANTONIO.

 

Bem, até que cheguei a encontrar Marta e Juliana (a sua namorada) durante as sessões do 11º Festival. Mas foi muito pouco. Principal razão: a sua estranha grade de programação.

Até o 10º Festival, com todos os seus problemas, podia-se acompanhar as Mostras (especialmente as Competitivas) tranqüilamente, a ponto de sair de uma sessão da Informativa de Vídeos e ir para uma da Competitiva de Vídeos e daí para outra da Competitiva de Curtas – o que, aliás, era digno de elogios. Este ano, os elogios terão que ser guardados para o próximo Festival, a não ser que se repita o que houve aqui neste ano: Mostras Competitivas separadas por espaço (a de Vídeos no CCBB, a de Curtas nos Correios), com os horários praticamente paralelos: quem ia ver sessões da Mostra de Curtas, às 18:00, poderia dar adeus à sessão da Mostra de Vídeos, às 19:00. "Ah, mas a sessão dus vidio repetia no dia siguinte", dirá alguém. É, mas não os debates, e quem queria participar deles tinha que escolher entre um e outro – e não devia.

 

Já era coisa demais para pensar e falar sobre o Festival. Mal sabia eu que ainda tinha mais.

Em 12 de junho do corrente – no dia seguinte ao encerramento do FBCU –eu e muitas pessoas mais recebemos uma mensagem de Rafael Leal, aluno de Cinema da UFF, prestes a se formar de vez, assim que finalizar seu curta-metragem de realização, O Inferno são vocês (http://www.uff.br/oinfernosaovoces), pedindo para que a encaminhássemos para qualquer uma das listas de discussão na internet sobre Cinema, especialmente a da ABD. Na mensagem, o rapaz estava soltando fogo pelas ventas.

 

Caros Amigos,

em relação aos últimos acontecimentos no Festival Brasileiro de Cinema Universitário, gostaria de tecer alguns comentários.

 

O FATO:

Nesta 11a Edição do Festival Brasileiro de Cinema Universitário - FBCU, increvemos um vídeo chamado "Meninas" (http://www.fbcu.com.br/2006/infovideos24.htm), que estreou no Gramado Cine Vídeo 2005, participando de inúmeros outros festivais Brasil afora. Este vídeo não foi selecionado, sob o argumento de que os realizadores, Dostoiewski Mariatt e eu, não seríamos mais universitários, pois nos formamos em abril último, ainda que o filme seja uma produção universitária e que ainda fôssemos estudantes de cinema quando o filme foi realizado. Após contestarmos a recusa, o vídeo foi selecionado, mas não para a Mostra Competitiva de Vídeos, sendo programado na Informativa.

E para a surpresa de vários companheiros nossos que estavam presentes às sessões da Competitiva, viu-se um vídeo parecidíssimo com o "Meninas", chamado "Chá das Cinco", realizado por alunos da Universidade Estácio de Sá. As mesmas drag-queens retratadas em nosso documentário, contando as mesmas histórias. O próprio nome "Chá das Cinco" não é original, uma vez que o diretor Paulo Nascimento, da Accorde Filmes, já havia lançado um vídeo com este nome.

 

UM ESCLARECIMENTO NECESSÁRIO:

Apesar do desconforto causado por esta "coincidência", não estamos acusando ninguém de plágio intencional. Escolhemos, assim como eles, as drag-queens mais famosas da noite carioca, e embora nosso filme tenha estreado e divulgado meses antes, não é impossível (ainda que seja improvável) que tenham sido filmados em datas próximas.

O que mais nos incomodou, e continua incomodando, é o fato da "curadoria" dos vídeos do Festival Brasileiro de Cinema Universitário, a cargo basicamente de uma única pessoa, ao ver os dois filmes e comprovar sua similitude, tenha negado o diálogo entre as duas obras e, principalmente, ao público e ao júri o direito de comparar e julgar ambas as obras.

Várias pessoas que haviam visto o "Meninas" ficaram incomodadas com a situação durante a exibição de "Chá das Cinco", algumas até manifestando-se e gritando "plágio". E, para aumentar o desconforto, "Chá das Cinco" venceu o prêmio do público e o prêmio da ABD - Associação Brasileira de Documentaristas, dados durante o FBCU. Diga-se de passagem, "Meninas" foi aplaudido efusivamente em todos os festivais e mostras em que foi exibido, inclusive vencendo o prêmio do Júri Popular no I MOSCA.

 

CONCLUINDO:

Lamentavelmente, a ABD assina - ainda que ingenuamente - em baixo dessa embaraçosa situação criada pelo "curador" do FBCU.

Quando indagado sobre a questão, o todo-poderoso "curador" disse que 'o que importava para a seleção dos filmes eram seus próprios critérios pessoais', que pelo visto, ficam acima da ética e da lisura.

Dessa forma, gostaríamos de tornar público nosso repúdio ao "curador" do FBCU, bem como dissipar, por via do esclarecimento, toda a sorte de boato e diz-que-me-disse acerca deste lamentável fato.

 

Atenciosamente,

 

Rafael Leal

Dostoiewski Mariatt

 

realizadores do filme "MENINAS"

 

Exagerado? Talvez. Injusto? Talvez, mas isso veremos adiante. Mas ainda estou para ver um criador, em qualquer área da arte – especialmente no audiovisual – que não defenda sua cria ferozmente em alguma situação em que ache que ela tenha sido sacaneada. E aí, a fúria do criador de arte pode ser injusta com terceiros. Só não deixa ninguém indiferente.

 E ainda que não consiga acertar o alvo desejado, acaba acertando onde nunca se esperava ver algo.

 

Para variar, o pau comeu. Também para variar (sabe-se lá por que isto às vezes acontece na lista da ABD...), outros assuntos – lei do curta, co-produções com Hollywood etc. – vieram erraticamente à tona, quase desviando o foco da discussão.

Discussão que praticamente terminou quando um dos diretores da ABDeC-RJ, Frederico Cardoso, encaminha à lista uma mensdagem-resposta de Guilherme Tristão. Vale a pena transcrevê-la – quer dizer, descontadas ironias, desaforos e Cia. Ltda., que o gajo também virou onça:

 

(...)

Em respeito (ainda) à sua pessoa, e para que não grasse a desinformação numa lista pública como é a da ABCeD, venho aqui esclarecer os pontos que vc levantou em seu e-mail e outros correlatos que vc omitiu.

Primeiramente, todo e qualquer argumento levantado não pode omitir a verdade.

E você, infelizmente, mentiu logo no primeiro parágrafo com esta frase:

 

Este vídeo não foi selecionado, sob o argumento de que os realizadores, Dostoiewski Mariatt e eu, não seríamos mais universitários, pois nos formamos em abril último, ainda que o filme seja uma produção universitária e que ainda fôssemos estudantes de cinema quando o filme foi realizado.

Após contestarmos a recusa, o vídeo foi selecionado, mas não para a Mostra Competitiva de Vídeos, sendo programado na Informativa.

 

Que imaginação fértil!!!  Se ela fosse demontrada em outras atividades...

Eu JAMAIS e EM MOMENTO ALGUM disse para vc ou para Dostoiewski Mariatt que seu vídeo não estaria inscrito (e não, *selecionado*, que é um processo a posteriori) porque vcs já seriam formados. Nem poderia, pois a regra do Festival, que vc não deve ter lido ou deve ter tratado com descaso, é clara:

 

O diretor  e, pelo menos, (03) três funções técnicas entre Roteirista, Diretor de Produção, Diretor de Fotografia e Câmera, Técnico de Som Direto e/ou Editor* terão de ter sido ocupadas EXCLUSIVAMENTE por universitários à época da realização do vídeo"

 

O problema era que vcs, por falta de leitura do regulamento, não me enviavam os comprovantes de todos os universitários para atender a estas exigências.

Prova são os e-mails constantes q enviei para o e-mail de contato, fornecido na fch de inscrição, solicitando coisas simples como xerox das carteirinhas, q vcs por algum motivo não enviavam.

No dia 28 de abril, portanto BEM DEPÒIS DO PRAZO FINAL que era 17 de abril, o secretário do IACS-UFF, José Luiz Sanz, assinou uma declaração oficial,

que me foi entregue, relatando que à epoca vcs eram alunos do Curso de Cinema. Era o doc que eu precisava e, portanto, a partir dali o vídeo MENINAS estava apto a ser selecionado para a Mostra Competitiva, já que para a Informativa TODOS OS VÍDEOS INSCRITOS, independente de docs ou não, estão programados.

Portanto, sua versão é completamente absurda!

Agora vamos aos seus inconformismos.

O vídeo CHÁ DAS CINCO não entrou no Festival em detrimento do seu MENINAS. Entrou por mérito próprio, o que provou ter sido uma decisão

corretíssima de nossa parte. Ambos tinham condições e méritos para entrar na Mostra Competitiva, mas, como já lhe expliquei, tínhamos de fazer cortes nas 41 horas de vídeos inscritos, totalizando 119 vídeos. Criamos, neste ano, o sexto programa na Mostra e ainda assim, só pudemos programar nela 54 vídeos, totalizando 10 horas e meia de programação.

E, então, o que cortar para caber dentro da Mostra Competitiva?

É claro que o gosto pessoal, a vivência e as escolhas necessárias para uma boa mostra competitiva são feitas pelas pessoas que organizam a mostra - leia-se: eu e meu assistente.

Vc, na conversa comigo, para me instigar, disse-me que todo festival "sério" terceiriza sua seleção.

Meu caro, a terceirização pode estar em voga em muitas empresas e escritórios de administração; nunca será prática neste festival, criado por pessoas que já foram alunos de cinema como você e amam o que fazem e amam os vídeos que apresentam no Festival, aliás razão primeira de sua existência.

Deixe-me explicar porque os chamados festivais, "sérios" para você, terceirizam suas seleções: porque a maioria deles, aqui no Brasil, é realizada por empresários ou políticos (secretários de cultura) que nada entendem da atividade e, tlvz, nem amem o que exibem.

É claro, então, que precisem terceirizar suas seleções.

Há outros festivais, que terceirizam, porque seus realizadores não conseguem assistir a tudo que é inscrito e dividem os selecionadores em grupos para ajudá-los. Por fim, há os grandes festivais, cujos "curadores" dão a cara e se confundem com os eventos que  organizam: é o caso do Leon Cakoff e sua mulher Renata na Mostra de SP; Ilda Santiago no Festival do Rio; é o caso de Gilles Jacob do Festival de Cannes; Dieter Kosslick. do Festival de

Berlim, etc...

Evidentemente, não quero me comparar a nenhum deles, mas no Festival que eu organizo, e que ajudei a fundar e a manter por pura paixão, terceirização é palavrão, e quero sim, junto aos meus amigos, selecionar o que acho de melhor para o público.

Na mesma conversa, vc citou os Festivais de Gramado ou o MOSCA como chancela para seu vídeo. Felicito-o pelo sucesso nos referidos festivais, mas o festival que ajudo a organizar não necessita da chancela de nenhum outro, pelo simples motivo de sermos festivais diferentes e de perfis diferentes. E que bom que seja assim: além da diversidade dos trabalhos, temos no Brasil diversidade no perfil dos festivais, o que pode fazer que uma obra menos bem recebida em um seja melhor compreendida em outro.

Deixe-me explicar porque seu vídeo acabou por não entrar na Competitiva. Na verdade, ele foi cogitado até o ultimo momento, até por ser da UFF, da "casa",

portanto. No entanto, seu vídeo é contruído dentro do esquema DEPOIMENTO - ILUSTRAÇÃO (no caso show das drags); DEPOIMENTO - ILUSTRAÇÂO; esquema este que é utilizado em inúmeros documentários já vistos por mim, que acabam por se sustentar apenas na força dos depoimentos ou do tema.

Portanto, na hora de cortar, optamos por vídeos QUE A NOSSO JUÌZO e que PARA O PERFIL DO FEST UNIV se mostravam um pouco mais eficientes e/ou criativos.

É o caso de CHÁ DAS CINCO, onde o diretor consegue os mesmos depoimentos reunindo as "senhoras" em torno de uma mesa de chá, sorteando temas como no jogo da verdade. Como o diretor´do vídeo é homossexual assumido, sabia bem o que retratava e como explorar com sensibilidade o tema. Já vc, ao meu ver, se utilizou de uma estrutura mais conservadora e não conseguiu a mesma espontaneidade e entrega dos entrevistados, talvez por ser apenas um curioso ou estudioso do assunto, se eu não estiver enganado.

Aliás, é um absurso vc sugerir plágio no e-mail (ou acusar, como fez na conversa de domingo) um vídeo que tem uma estrutura tão diversa do seu, só tendo semelhança no retrato das 5 mais conhecidas drags do Rio que, ainda que sejam boas atrizes - convenhamos -, não podem inventar muita coisa diferente do que contam sobre suas vidas.

(...)

Mas repito o que te disse no domingo: vc, Rafael, mexe com arte e não com ciência exata. Faz curtas, transmite informação; não constrói pontes, nem faz cálculos matemáticos. Precisa então estar preparado para as mais diversas e inesperadas reações ao que vc realiza. Por não ser ciência - repito - causa e causará, nas diferentes pessoas que o assistam, reações e percepções que não serão uniformes, nem previsíveis. Meu sobrinho de 15 anos; minha

irmã de 35; minha mãe de 63; meu avô de 82; eu de 46; um italiano; um árabe; um paulista, um niteroiense; cada um de nós vai ter um olhar diferente em relação a MENINAS ou a qualquer outro curta que nos seja apresentado.

Como já lhe expliquei, por não ser ciência exata, o humor do dia, até mesmo a ordem em que se assiste um vídeo, entre muitos, pode nos influenciar a recepção do que vemos. Como eu tb não sou cientista, admito sem problema algum que meus humores, minhas experiências pessoais, o que já vi em audiovisual, e até o que acho que o público vai gostar e o que não vai gostar (Ikeda e Scucato) me inflenciam no que escolho para entrar na Mostra Competitiva.

Posso errar? Claro. Mas pode ter certeza que é erro de pessoa apaixonada e não de seleção terceirizada ou chancelada, como vc parece preferir num festival tão pequeno e "caseiro" como o nosso.

Vc me ironiza como "o todo-poderoso curador". Eu de todo-poderoso não tenho nada, nem dentro do festival que ajudei a criar. Mas nós todos, que o realizamos, gostamos muito do festival que organizamos, muito sabemos que ele podia ser bem melhor, e temos muito orgulho de termos conquistado um espaço, ainda que pequenininho, para divulgar trabalhos de estudantes que um dia todos nós fomos. Trabalhamos e muito, APENAS para divulgar o trabalho dos OUTROS e porque gostamos de fazê-lo. Não é pelo salário que, acredite, com o patrocínio que temos, é ridículo para todos que nele trabalham.

Todo-poderosos são aqueles que vc, a continuar produzindo arte e não ciência exata, vai ter de enfrentar mais cedo ou mais tarde: os programadores das Cinemarks e Luiz Severianos da vida; os Gilles Jacobs; As Tvs Globos; os diretores de Marketing; as Distribuidoras...

Guarde, portanto, as suas energias mal canalizadas para brigar com quem realmente vc vai precisar de usar de valentia, determinação e talento para enfrentar. Não veja falsos gigantes criados por moinhos de sua imaginação!

Para finalizar, queria de qualquer modo te agradecer pela atenção e importância que vc, mesmo por vias transversas, confere ao Festival ao manifestar seu equivocado protesto na lista pública da ABDeC. Na melhor das hipóteses, vc deve ser um apaixonado pelo que faz, daí sua reclamação equivocada e certas inverdades por falta de melhores argumentos.

Saiba que sua tristeza por não ter entrado na Mostra Competitiva, não só é entendida, como compartilhada por mim e meus companheiros, que temos a penosa missão de fazer os cortes e realizar as programações. Temos enorme pesar por deixar tanta coisa boa de fora, mas infelizmente não sabemos como deixar de fazer uma seleção, que por tentarmos evitar, nos impediu até 2000 de fazermos uma mostra competitiva de vídeos.

(...)

Atenciosamente,

 

Guilherme Tristão

 

Coordenador do Festival Brasileiro de Cinema Universitário; e

Coordenador de Programação do Grupo Estação

 

Pronto, assunto encerrado na lista da ABD, e este artigo bem que poderia acabar ali no trecho referente à grade de programação da edição 2006.

Até a hora em que resolvi reler com calma e atenção a resposta de Tristão. E algumas coisas me chamaram a atenção pela tal de contradição.

 

(...) há os grandes festivais, cujos "curadores" dão a cara e se confundem com os eventos que organizam: é o caso do Leon Cakoff e sua mulher Renata na Mostra de SP; Ilda Santiago no Festival do Rio; é o caso de Gilles Jacob do Festival de Cannes; Dieter Kosslick. do Festival de Berlim, etc...

Evidentemente, não quero me comparar a nenhum deles, mas no Festival que eu organizo, e que ajudei a fundar e a manter por pura paixão, terceirização é palavrão, e quero sim, junto aos meus amigos, selecionar o que acho de melhor para o público.

"Eu organizo"? E Flávia, Roberta, Aleques & Cia. Ltda.

Tá, pode ser erro de entendimento meu: talvez Tristão tenha querido dizer: "no Festival que eu organizo, junto com os outros".

Ainda assim, como diria o filósofo Didi Mocó: CUMA?

Como já lhe expliquei, por não ser ciência exata, o humor do dia, até mesmo a ordem em que se assiste um vídeo, entre muitos, pode nos influenciar a recepção do que vemos. Como eu tb não sou cientista, admito sem problema algum que meus humores, minhas experiências pessoais, o que já vi em audiovisual, e até o que acho que o público vai gostar e o que não vai gostar (...) me influenciam no que escolho para entrar na Mostra Competitiva.

"Meus humores"? "Minhas experiências pessoais"? "O que acho que o público vai gostar"?

Didi Mocó de novo: CUMA?

É claro que o gosto pessoal, a vivência e as escolhas necessárias para uma boa mostra competitiva são feitas pelas pessoas que organizam a mostra - leia-se: eu e meu assistente.

"As escolhas necessárias são feitas por eu e meu assistente"? Mas Tristão não deu a entender, na resposta a Rafael, que ele não era "todo-poderoso" nem nada – isto é, que não é o único a selecionar os trabalhos para a Mostra Competitiva de Vídeos?

Didi Mocó pela terceira vez, com cada vez mais espanto: CUMA?

 

Didi Mocó pela quarta e, juro, última vez mesmo: de repente, fiquei cafuso, cafuso...

E, por estar cafuso, apelo para Marta outra vez, mandando-lhe a mensagem de Rafael, a resposta de Tristão e minhas dúvidas.

A resposta levou 24 horas para chegar, mas chegou.

 

Ah, mon cher Antoine...

Se somarmos os dados que você me mandou, com outros que verifiquei, tem algumas coisas que realmente dão o que pensar. Mas tem outras que, sinceramente... Depois eu é que penso caraminholas...

Se alguém me perguntasse se Tristão tem paixão pelo Festival, diria que sim, que é verdade. Só que a paixão assume várias formas. Eu conheço três: a possessiva, a submissa e a cega. E, pelos fatos que você me narra, me parece que a paixão de Tristão, paradoxalmente, assumiu as três formas ao mesmo tempo.

A paixão possessiva se dá assim: quando o Rafael Leal acusa Tristão de ser "o todo-poderoso curador", o único a selecionar os vídeos da Mostra de acordo com critérios que lhe dão na veneta, Tristão refuta a acusação, mas acaba se traindo em dois trechos de sua resposta: ao informar que é ele e seu assistente que são os organizadores da Mostra Competitiva de Vídeos (portanto, dá a entender que ele e seu assistente é que selecionam; e ao assumir que é o "seu humor", suas experiências pessoais e seu gosto que influenciam a escolha dos vídeos. Mais que isso (talvez eu tenha entendido mal), ao achar que um grupo de pessoas que se encarregue de selecionar trabalhos para uma Mostra, competitiva ou não, seja "terceirizar a seleção", e que isto é coisa de festivais "falcatrua", feitos por empresários ou políticos (secretários de cultura) que não entendem porra nenhuma de audiovisual ou porque seus realizadores não tem tempo para assistir a tudo que é inscrito e dividem os selecionadores em grupos – coisa que não precisa ser feita no FBCU porque, segundo ele, é um festival "caseiro".

Bem, de certa forma o Tristão tem razão.

No entanto, não dá para negar que o Festival Internacional de Curtas-Metragens de São Paulo é um festival sério e prestigioso. Quando eu e Juliana estivemos em Sampa em 2004 para te ver e, aproveitando o ensejo, para ver o Festival de Curtas, ganhamos um catálogo – cortesia sua, que foi à abertura no Teatro Municipal.

Nos créditos do festival, lá na última página, uma informação extra: a composição da Comissão de Seleção dos trabalhos – 17 pessoas.

 

No fundo, sei lá como é a metodologia de trabalho da Comissão de Seleção – se eles se dividem em subgrupos, se trabalham todos juntos etc. e tal – mas uma coisa é certa: não é uma pessoa só ou duas que fazem a seleção; talvez por isso é que eu nunca tenha ouvido falar de contestações ao resultado das seleções. E se compararmos com o catálogo de 2003 (onde a Comissão tinha 23 pessoas), notamos nomes de participantes mais freqüentes: André Francioli, Anne Fryszman, Beth Sá Freire, Christian Saghaard, Cristina Alves, Flávia Zedan, Francisco César Filho, Helvécio Marins Jr., Moema Müller, Suzy Capó, Zita Carvalhosa – todos membros da Kinoforum e integrantes do Festival desde edições anteriores. Ou seja, a seleção de trabalhos para o Festival de Curtas não é nem é a cargo de pouca gente, nem é "terceirizada" – isto é, a cargo de gente que não tem nada com o evento.

E nem o FBCU pode ser chamado de caseiro, como era em seus primeiros tempos – aliás, talvez seja o fato de não entenderem isso que os impede de observar o óbvio: este Festival cresceu – em tamanho (não ainda no tamanho de um Festival do Rio ou de um Festival de Curtas de Sampa, mas cresceu), em importância e, et pour cause, em recursos para ser feito.

O que nos leva à submissão.

Por esse amor pelo Festival que fazem (e aí estou incluindo os companheiros de Tristão nesta empreitada), eles são capazes de fazer qualquer coisa. Inclusive de negociar e, sempre que necessário, fazer concessões. Para isso, três coisas são necessárias: jogo de cintura para ceder onde e quando necessário; firmeza para não ceder demais (ou, se preferirem, "abrir as pernas"...); e bom senso e discernimento,  para saber em qual das ocasiões deve-se ceder ou resistir.

Neste caso, como não sou de cinema nem ligada ao FBCU, só posso especular. Mas o que posso notar, ainda de longe, é que, se ainda há bom senso, o discernimento a respeito do que se deve ceder e onde se deve resistir está cada vez mais fraco. Ou seja, ao que me parece, o pessoal do FBCU está disposto a atender todas as exigências da direção do CCBB-RJ – por mais idiotas, absurdas ou humilhantes que sejam – para manter o evento lá no "puteiro de luxo" e o dinheiro do patrocínio. Ou melhor dizendo, para manter um pé e meio do Festival no Rio. Sim, porque, a este ritmo – e se o Festival de 2007 for feito assim – não dá para falarem que a idéia do FBCU é de manter um pé em Niterói e outro pé no Rio.

E, se o que contatos que tenho dentro do Banco do Brasil e da Petrobras estiverem certos, exigências que podem ter nascido de um certo  ciúme. Ciúme de quem? Ora, do CCBB com a Petrobras, que passou a apoiar o Festival a partir do ano passado. Mas, às vezes, estes contatos podem estar de sacanagem comigo...

 

E onde entra a cegueira?

Entra justamente nisto: com esta preocupação em atender ao CCBB, outras coisas para pensar e fazer são deixadas de lado.

Tem algumas coisas que posso sugerir para fazer.

Uma é mandar o CCBB para, com o perdão do termo chulo, P-Q-P, e procurar outros espaços no Rio para o "pé carioca" do FBCU. Que tal ir para os Correios ou para a nova Caixa Cultural, que tem umas salas de cinema maneiras?

A outra é retomar a relação com o Centro de Artes da UFF e com a Prefeitura de Niterói, para que a sede do FBCU seja efetivamente em Niterói; outro pé no Rio, só para reprisar todas as mostras --  tanto as Competitivas como as Informativas.

E para pensar? Tenho outras tantas sugestões.

Uma é planejar a programação do Festival para que TODOS os eventos possam ser acompanhados sem dificuldade, como nas edições anteriores.

Outra é repensar a seleção de trabalhos para a Mostra Competitiva de Vídeos. Como o próprio Tristão admite, o seu humor, experiências pessoais, o que ele acha que o público vai ou não gostar influem na escolha, e portanto na possibilidade de erro. Com um grupo de pessoas selecionando os vídeos, os humores, experiências e gostos de três, quatro ou mesmo cinco pessoas (uma delas – por que não? – o próprio Tristão) podem até se entrechocar, mas acabam, digamos assim, se anulando e chegando a um acordo na seleção final. Mais que isso: paradoxalmente, erram menos. Pelo menos, tem mais gente para os não-selecionados xingarem... Mas contestar, não há como.

Finalmente: repensar o próprio Festival Brasileiro de Cinema Universitário. Isto é, como lidar com o tamanho a que chegou e, principalmente, como lidar com seu objetivo original: a divulgação da produção audiovisual universitária brasileira para o grande e respeitável público.

Por outro lado -- é, esse aí mesmo, entre o Cine Arte UFF, o Espaço Unibanco de Cinema, o Odeon BR e as novas salas 1 e 2 da Caixa Cultural - me explique uma coisa: você testemunhou o nascimento do Festival (aliás, nós testemunhamos), mas não trabalhamos nele. Então, uma ligeira pergunta oswaldiana: QUE TEMOS NÓS COM ISSO?

 

De votre diable au corps,

 

MARTA.

 

P.S.: Ah, a Ju te mandou um beijo.

 

 

 

 

[1] Ah, sim, já ia esquecendo de falar que Marta – morena e magrinha como qualquer polinésia (copyright Cecília Meireles) – é uma destas meninas que assumidamente amam meninas. Está aqui nessa nota de rodapé porque, com exceção dos homófobos, isto não interessa a ninguém, nem tem a menor importância.

[2] Uma piada particular nossa, em cima do romance de Raymond Radiguet, O diabo no corpo (Le diable au corps, 1920), que nós lemos e que, mais tarde, viraria um filme (mais ou menos) de Marco Bellochio (1986).

[3] Por curiosa coincidência, ruas onde ficam os únicos quatro jornais diários desta Não-Mui-Leal-Mas-Sempre-Heróica cidade do Rio de Janeiro, nesta ordem: JB, O Dia, O Globo  e Tribuna da Imprensa. Não vou falar em qual deles Marta trabalha, mas quem adivinhar ganha um engradado de cerveja deste escriba.

 

 

ANEXO I – O NEGÓCIO É NÚMEROS

Escolas inscritas – 53

Escolas de Comunicação Social -

Escolas de Cinema - 12

 

RJ

Escolas participantes

12

 

Escolas de cinema

5

 

 

SP

Escolas participantes

11

 

Escolas de cinema

4

 

 

MG

Escolas participantes

8

 

Escolas de cinema

1

 

 

DF

Escolas participantes

1

 

Escolas de cinema

1

 

 

RS

Escolas participantes

4

 

Escolas de cinema

1

 

 

PE

Escolas participantes

2

 

Escolas de cinema

-

 

 

BA

Escolas participantes

4

 

Escolas de cinema

1

 

 

GO

Escolas participantes

1

 

Escolas de cinema

-

 

 

SC

Escolas participantes

3

 

Escolas de cinema

1

 

 

ES

Escolas participantes

2

 

Escolas de cinema

-

 

 

MS

Escolas participantes

1

 

Escolas de cinema

-

 

 

PR

Escolas participantes

1

 

Escolas de cinema

-

 

 

CE

Escolas participantes

1

 

Escolas de cinema

-

 

ANTONIO PAIVA FILHO é editor de SOMBRAS ELÉTRICAS.

 

© 2006 – Antonio Paiva Filho.

© 2006 – SOMBRAS ELÉTRICAS