SOMBRAS ELÉTRICAS Nº 10 - Maio de 2012

Long-Shot - ROTEIROS. ROTEIROS. ROTEIROS: O ROTEIRO E O ROTEIRISTA DE AUDIOVISUAL
 

ROTEIRO? PRA QUE ROTEIRO?

José Geraldo Couto

 

"Estou pronta para o meu close, sr. De Mille."

Gloria Swanson (centro) e Erich von Stroheim (à esquerda) em Crepúsculo dos deuses (Sunset Boulevard - EUA, 1950), de Billy Wilder.

 

“O problema brasileiro é a falta de bons roteiros.” Quantas vezes você ouviu essa frase?

A formulação tem décadas de existência, mas de quando em quando é requentada, como quando se faz a inevitável comparação entre filmes argentinos e brasileiros e se chega à conclusão de que a superioridade deles está nos roteiros.

É até possível que seja verdade, mas desconfio que se trate de uma falsa questão. Um filme que suscita uma discussão interessante a propósito do tema é o fascinante O céu sobre os ombros, premiado longa de estreia do mineiro Sérgio Borges, que acaba de entrar em cartaz. Mas, antes de chegar a ele, peço licença para contar uma historinha.

 

Wilder e Godard

Billy Wilder uma vez encontrou Godard, e este lhe disse que estava prestes a fazer um filme nos EUA (que acabou não acontecendo). Wilder então lhe perguntou se o roteiro já estava pronto. “Roteiro? Pra que roteiro?”, retrucou Godard, explicando que filmaria o que lhe ocorresse na hora. Wilder, contando o caso anos depois, mostrou-se indignado: “Como assim? Eu trabalho arduamente meses a fio para fazer um roteiro decente, e esse sujeito vem me dizer que roteiro não serve para nada?”. Cito de memória; se não me engano, li isso num livro de entrevistas de Michel Ciment.

Quem tinha razão, Wilder ou Godard? A resposta é: ambos. E isso não significa ficar em cima do muro, mas reconhecer que não existe apenas um cinema possível, mas muitos. Para Wilder, um dos diretores mais brilhantes do cinema narrativo clássico americano, o roteiro era quase um mecanismo de relojoaria. Para Godard, empenhado em romper fronteiras, arejar o cinema com a vida das ruas e inventar novas formas de expressão audiovisual, o roteiro podia ser uma camisa de força.

 

Ditadura do roteiro

Do mesmo modo, não existe um cinema brasileiro, mas vários. Para um determinado tipo de produção, empenhada em “conquistar o público”, o que se convencionou chamar de “um bom roteiro” passou a ser, a partir de um determinado momento, um imperativo básico.

Os roteiristas tarimbados passaram a ser valorizados e bem pagos (antes, no cinema novo e no cinema dito marginal, eram geralmente os próprios diretores que escreviam seus roteiros), criaram-se cursos, oficinas, laboratórios, hospitais, prontos-socorros de roteiros. Os manuais norte-americanos, como o do famigerado Syd Field, entraram em voga. Nunca se falou tanto em “curva dramática”, “ponto de virada”, “trama secundária”, “jornada do herói” e coisas do tipo. Buscava-se “o bom roteiro” como quem busca a fórmula da felicidade eterna.

O resultado disso, com as exceções de praxe, foi uma enxurrada de filmes corretos, bem feitinhos e insípidos, sem alma, sem vida, que na ânsia de agradar todo mundo acabam não agradando ninguém.

 

Acidentes de percurso

Tudo isso para dizer que, de alguns anos para cá, surgiu como que uma contratendência, da qual O céu sobre os ombros me parece um dos representantes mais felizes. Falo de filmes como Apenas o fim, Transeunte, A fuga da mulher gorila, A alegria, Os monstros, Bollywood Dream etc. São obras muito diferentes entre si e de qualidade desigual, mas que trazem em comum narrativas menos fechadas, mais distendidas, abertas aos acidentes do percurso.

Em todas elas há, em algum grau, uma contaminação da ficção pelo documentário, já que as circunstâncias das filmagens entram no quadro por todos os lados.

No caso de O céu sobre os ombros, a contaminação é completa, a tal ponto que não sabemos se estamos diante de uma ficção com aspectos documentais ou de um documentário organizado como narrativa de ficção.

 

Estranhos ímpares

Sobrou pouco espaço para falar sobre o filme antes que você comece a bocejar, mas basta dizer que ele acompanha alternadamente as trajetórias de três habitantes anônimos de Belo Horizonte ao longo de uns poucos dias. Há um devoto Hare Krishna que trabalha de operador de telemarketing e participa de uma violenta torcida organizada do Atlético Mineiro; um escritor negro que tem um filho excepcional e está em desavença com o mundo; e um travesti que à noite se prostitui nas ruas e de dia faz mestrado sobre questões de gênero.

São atores representando personagens fictícios? São “pessoas reais” filmadas no seu dia-a-dia? O filme deixa essas questões em aberto, e é isso o que ele tem de mais estimulante, até porque se trata de personagens multidimensionais, que não cabem em nenhum estereótipo (e em nenhum manual de roteiro). Como escreveu outro mineiro, Drummond, “todo ser humano é um estranho ímpar”.

O modo como o diretor Sérgio Borges organiza a exposição (e a ocultação) dessas existências singulares demonstra uma sensibilidade e uma segurança admiráveis. As três histórias são mostradas em fragmentos, alternadamente, numa decupagem de documentário, quase sem contracampo. A justaposição das trajetórias dos personagens, que nunca chegam a se cruzar, causa um efeito dramático curioso: aproxima-os secretamente em sua solidão irredutível, por assim dizer.

É como se o filme dissesse a cada um: certo, você é único em seu drama, mas existem outros solitários da mesma estirpe vagando por aí, no ônibus, na arquibancada do estádio, na sala de aula, no bar da esquina. Assim como a neve do conto de Joyce, que cai igualmente sobre os vivos e os mortos, o céu é o mesmo sobre os ombros deles, seus, nossos.

JOSÉ GERALDO COUTO é crítico e pesquisador de cinema.

O texto acima foi publicado no Blog do Instituto Moreira Salles (IMS) em 18 de novembro de 2011.

 

© 2011 - Blog do IMS (http://blogdoims.uol.com.br/)

© 2012 - SOMBRAS ELÉTRICAS